domingo, 1 de agosto de 2010

Palavra de confrade 12 - Zilá Mesquita

Zilá Mesquita começou sua vida docento como alfabetizadora. Atuou como professora de crianças e de adolescentes, como professora e pesquisadora na UFRGS. Publicou enaios acadêmicos no Brasil e no exterior. Com a história O macaquinho que saltou do livro, foi destaque no Prêmio Habitasul/Correio do Povo- Revelação Literária 82. Aposentada, faz mil pequenas coisas.. Dentre elas a escrita a 28 mãos de um romance em 2009: Apolinário e Esmê – Luz e sombra no paralelo 30 - Porto Alegre, Ed. Nova Prova.

1.Em que aspectos, na sua opinião, a literatura infanto-juvenil reina?

Parece-me que antes de reinar, ela acontece na vida da gente, para depois, sim, reinar. O que quero dizer com isso? Ela acontece quando alguém, geralmente na infância, é apresentado a uma boa, a uma ótima história. Geralmente há um apresentador, uma espécie de padrinho ou fada-madrinha que, através da oralidade, neste primeiro momento nos encanta contando algo que faz de nós antes de leitores, ouvintes atentos. Imagino, por exemplo, que “As aventuras do avião vermelho” quando contadas por Érico Veríssimo a seus filhos, tenham influenciado o Luis Fernando e a Clarissa, como me influenciaram as histórias contadas pela minha tia Maria.
Pessoas que foram alfabetizadas tarde, já na adolescência, (e depois se tornaram “amigos das leituras”) como o historiador e professor universitário Tau Golin ou a senadora Marina Silva, parecem ter tido estes “apresentadores” em suas vidas, antes mesmo do contato direto com os livros. Este “padrinho” ou “madrinha” é alguém que nos cativa como contador ao ponto de, mais tarde nos tornarmos enamorados da leitura, porque queremos saber mais histórias enamorantes.
Mas, assim como na vida, nem todos os dias são “Dia dos Namorados”, (leia-se: dos Encantados). Após esta iniciação, quando já travamos contato direto com os livros, é preciso “cultivar a relação”. É quando o encantamento vai se transformando em amor. É quando se proporciona ao leitor, especialmente o iniciante, a oportunidade de se evadir do seu aqui e agora por algum tempo e se transportar com expectativa para o universo de outros – os personagens que, em seu lugar vão viver experiências de medo, alegria, inveja, aflições, coragem, incertezas.
É então que a literatura, além de encantar, é capaz de transformar quem lê num buscador. O que quero dizer é que a boa literatura provoca não apenas aquele desejo de “quero mais”, mas transforma a leitura num hábito, quase um vício que acaba precisando ser praticado muito. E, se o vício de ler se instala assim, estão postas as condições para uma etapa mais árdua – a de leitura de estudo, em que o leitor, se bem formado, interroga o autor, confronta com as suas experiências, enfim interroga a vida enquanto lê. Pena que nem todos passem por esta transformação porque é aí que a literatura passa a reinar mesmo em nossas vidas. (Estou pensando no Tales, citado mais adiante).


2. Dos 38 encontros que a Confraria Reinações promoveu, qual foi mais marcante para você? Por quê?

Primeiro esclareço que participo há um ano apenas, e, no ano passado, por força de compromisso assumido às terças-feiras, deixei de participar de vários, embora tenha lido todos os livros de cujas reuniões não pude participar. Entretanto, dos que não participei das discussões, me marcou muito a leitura de Isto não é um filme americano, do Lourenço Cazarré. Este livro sobre jovens é “uma injeção direta na veia” de vários aspectos da realidade brasileira usualmente apenas presentes de forma lacônica e fria nas páginas policiais. A meu ver o Lourenço trouxe, para a descoberta do leitor, toda a sua experiência de jornalista e o conhecimento de como atuam alguns setores da mídia.
Outro encontro, este em que estive presente, e que me marcou , foi quando discutimos os livros infantis da Clarice Lispector, que me marcou pela surpresa que este encontro me proporcionou. A surpresa de manifestações de desacordo de como a autora conduziu a narrativa ou o tema abordado. Entenda-se: a surpresa não significa uma manifestação de contrariedade de minha parte, mas ela foi como um choque diante do inesperado. E, de repente, de vez em quando a gente leva um sacudão e fica pensando mais nas coisas, nos pontos de vista diferentes, não é mesmo? O clima que envolve nossos encontros é de cordialidade, espontaneidade e respeito pelas formas de expressão alheia. E isto eu valorizo muito!

3. Qual é, na sua opinião, a principal diferença entre escrever para crianças e adolescentes ou para gente adulta?

Penso mais nas concordâncias que nas diferenças. A principal concordância é a tão propalada qualidade. Escrever para crianças e adolescentes requer o mesmo cuidado e atenção que escrever para adultos, com o acréscimo de que o/a escritor/a está se dirigindo a um público que está se formando como leitor e não pode - entende? - Não pode perder este leitor, não pode transportá-lo para a terra do “nunca mais!”
O desafio se torna grande, enorme mesmo, agora em que os jovens e crianças têm outros “padrinhos e madrinhas” não presenciais: a TV, o cinema, o vídeo (que transforma em desenhos animados as histórias que líamos para os pequenos) que presentifica na tela em ação, as aventuras antes lidas somente em livros; a internet, com o twitter, o orkut, o youtube, blogs, que são ou podem ser contadores de histórias muito diferentes daquelas contadas em livros. E é aí, me parece, que residem as diferenças desafiantes.
Além disso, neste panorama de tantas ofertas sensoriais, há uma enorme possibilidade de nos tornarmos seres distraídos, dispersivos, porque nossa atenção é solicitada a todo o momento e em múltiplos aspectos e direções.
A literatura que nos cativa - adultos ou crianças - tem a característica de ser envolvente e não há envolvimento sem concentração, sem se estar “por inteiro” naquele instante presente. Logo, todo o envolvimento requisita concentração numa coisa só, naquele dado instante. É “ser de sua amada por inteiro” parodiando Vinícius de Moraes. E isso a leitura faz com propriedade através deste tipo de literatura.


4. O que é pra você qualidade quando se fala em literatura infanto-juvenil?

Quando eu leio um livro de literatura infantil ou juvenil, o que espero encontrar é sensibilidade e emoção na escrita, mas também respeito por aquele ser que está ensaiando e exercitando análises, comparações e sínteses, processos internos que o habilitem a elaborar um pensamento lógico com clareza. Espero que estas leituras, sem nenhum tom pedagógico ou doutrinário, o ajudem, sejam mais um elemento entre outros, capaz de auxiliar um leitor “de qualquer coisa que lhe caia nas mãos” a se transformar num leitor crítico, seletivo, aquele que consegue transpor a barreira do simples “gostei ou não gostei”, alguém capaz de explicitar o porquê de suas escolhas.
É aí que a literatura reina: quando ajuda alguém a estruturar-se melhor como ser humano. E essa responsabilidade aumenta, quando professores e/ou pais não estão conseguindo ajudar a formar mentes e corações capazes de discernir. Fazer este trabalho de formiguinha que é possibilitar que alguém se evada do analfabetismo funcional ou do bombardeio diário de informações acriticamente recebidas, repetidas e que, por emulação vão espalhando estereótipos, representações sociais tidas como opiniões próprias, é, a meu ver, “A” tarefa aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.
A outra tarefa de Atlas é incluir, captar este público infanto-juvenil alheio à escuta e quem dirá à leitura! Exemplo: Outro dia, na Biblioteca Lucília Minssen, encontrei o Tales, 13 anos, brincando sozinho de atirar com brinquedos de plástico que fazia às vezes de armas. Não quis nem se aproximar das estantes, muito menos de qualquer livro. O fato de estar lá, com outros dois colegas que jogavam damas, talvez se devesse a só passar o tempo, após uma aula de um projeto de inclusão social da Casa de Cultura Mário Quintana. Há ou não há muito o que fazer por aí?
Desculpem este ar de discurso. Vou resumir tudo no seguinte: para mim, qualidade em literatura é quando um livro nos faz ficar pensando sobre o que ele nos relatou. Se for com encantamento, melhor ainda!
Melhor ainda mesmo se ao acabarmos sua leitura saímos nos perguntando: E se fosse eu? E se fosse comigo? Como seria? O que eu, no lugar deste personagem faria? Por quê?
Há livros que me levaram a pensar nisso e em outras coisas e por isso não passaram “em brancas nuvens” por mim. Antes de tudo, porém, um bom livro é aquele que concilia emoção e razão.


5 . Existe algum tema tabu ao se pensar a literatura para criança e para adolescente, enfim, algum assunto que não seja adequado?

Não creio que haja propriamente temas tabus, mas sim temas pouco explorados. Quer ver um deles? Somos um país cuja população está envelhecendo. É só dar uma olhada nas mudanças na pirâmide etária brasileira dos últimos anos. Isto tem várias consequências que nem vou citar para não desviar do assunto.
Contudo se a este fato acrescentarmos a forte presença dos “padrinhos e madrinhas” não presenciais antes mencionados – TV, twitter, orkut, youtube, blogs – como e com que frequência se dá hoje o diálogo intergeracional, ou seja entre mais velhos e mais jovens? Esta uma pergunta que tenho me feito e este é um tema, talvez, a prospectar.


6 . Que dica de leitura você daria aos confrades da Reinações? Por quê?

Puxa, que pergunta difícil! Vou fazer um esforço e citar só dois. Pode? Não são “literatura juvenil” entendida como escrita para jovens, mas sobre jovens, envolvendo jovens.
Um deles é O clube do Filme, editora Intrínseca, do canadense David Gilmour, que trata de como um pai, com extrema sensibilidade e carinho relata a sua experiência e o seu desafio, numa fase complicada de sua vida, tendo ainda que lidar com um filho de 15 anos, “colecionador de reprovações em todas as disciplinas”. Sobre este livro, eu escrevi para mim mesma: lido com muito prazer em 2009!
Raramente encontro tempo para reler um livro, mas o segundo a citar, foi lido duas vezes em diferentes momentos. Foi um livro publicado há mais tempo que virou filme e, o que raramente acontece, com extrema fidelidade. Chama-se: Harold e Maude - Ensina-me a viver, de Colin Higgins, editora Record. Justamente trata com alegria e humor de conflito e diferenças entre gerações e modos diversos de encarar a vida.

7 . Que palavra de Confrade você gostaria de conhecer mais?

Difícil é fazer escolhas. Eu já demonstrei isso, não foi? Priorizar uns e deixar outros de lado. Na verdade eu gostaria de conhecer a palavra de mais de um, mas, como a necessidade obriga, vou fazer só uma opção: Simone Saueressig.

4 comentários:

Rejane Maria disse...

Conheci a Zilá quando de sua visita a Caxias do Sul para a comemoração do aniversário de 1 ano de nossa Confraria.
Ouvi o seu pronunciamento, conversamos um bocadinho, e descobri que ambas gostamos de Clarice Lispector.
Adorei suas palavras também aqui, suas ponderações e opiniões muito relevantes sobre literatura e suas reinações.
abraços a ela e a todos os amigos literários aí de POA
Rejane Romani Rech

Zi disse...

Gracias, Rejane.
Não é só para jogar confete, mas eu gostei da tua fluência e clareza como comentadora lá em Caxias.
Abraços e o convite para participares de nossa Confraria, quando vieres a Porto Alegre, numa terça-feira.

Até mais,

Zilá

Anônimo disse...

Oi, Zilá,
Que excelente entrevista. Fiquei encantada com teu pronunciamento. Assino embaixo.
Estou no momento escrevendo uma nova crônica para o jornal RSletras e estou pensando em citar uma frase tua no texto. Tenho tua permissão?
Abraços
Jacira Fagundes

Zi disse...

Jacira:

Companheira confrade:
Eu me sentirei honrada em ser citada em tua crõnica.
Posso ver depois o que te chamou a atenção?
beijo,

Zilá.