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terça-feira, 13 de março de 2012

Aldabra: ato de amor à criação literária


ALDABRA: A tartaruga que amava Shakespeare

por João Carlos Rodrigues

Os deuses do mar estiveram a preparar o ambiente. Movimentos singulares,
mergulhados em longos tempos, criaram espaços pelo planeta. Depois, muito
depois, uma civilização gerou o gênio em Shakespeare. E depois, o talento da escritora
italiana Silvana Gandolfi quis, por sua vez, homenageá-lo.
Aldabra, Itália e Inglaterra formam um triângulo de amorosidade,
na obra. Na ilha vulcânica do oceano Indico, Aldabra abriga uma tartaruga macho
que recita Shakespeare; Veneza abrigou uma inglesa - casada com italiano - e
que amava a produção literária do poeta conterrâneo.
A inglesa ficou viúva e com uma filha - a quem odiava - e uma
menina neta cúmplice de seu desconforto e de sua alma poética.
A inglesa viúva lutou por envelhecimento sem morte, a filha a
internou por insanidade, a neta fez o que pôde e o que não sabia para
protegê-la, nesse triângulo doméstico. Uma cumplicidade, um processo de passagem, uma maré alta, e transporte em navio levaram a amante de Shakespeare à Aldabra, na vida de
tartaruga e com outro sexo, num pleito à liberdade e num espetáculo de talento e de louvor à criação literária.

sábado, 15 de outubro de 2011

Mergulho no Barril, por João Carlos Rodrigues

UM BARRIL DE RISADAS UM VALE DE LÁGRIMAS*, de Jules Feiffer

Um mundo mágico, percorrido em 30 anos, com coordenadas do sábio J. Imago Mago e com dicas da feiticeira Colombina Cristalina, na parte final. Três personagens perpassam a fabulação: a intuição do sábio Mago; as peraltices de Tom; e a luta de Roger pela construção de sua identidade.
Linhas paralelas se trançam entre as pontas do início e do fim da história: um reinado em cada extremidade. No início, o simplório rei Dedilzifidicer, com seu ‘cumequechama’ de 8 km, uma rainha engolida em trajes de banho por uma baleia e um príncipe sem juízo; no final, um rei durão, cuja rainha dá à luz uma princesa estonteantemente linda, que petrifica seus pretendentes. O príncipe protagoniza sua busca, embora não saiba qual é, para no final encontrar a bela princesa e receber dela o Beijo da Vida.

Recursos inusitados do autor vão sendo apresentados desde o começo do trabalho: em interlocução com o leitor - no capítulo 5 em especial - confessa perder o controle sobre o personagem Jack, que mudou de nome, saiu do livro e a ele voltou, além de entrar noutros livros
e deles sair, em razão de seu tédio. A intuição do bruxo traçou linha invisível para Roger, pois o sábio visualizou a gravidade do problema do menino que fazia todo mundo rir e que todo mundo o fazia rir. “Você só tem ossos engraçados. E um príncipe sem algum osso que não seja engraçado não está em condições de ser rei, de ser um pai ... um adulto, sequer. Você não está preparado, talvez nunca fique preparado para assumir os deveres, as obrigações e responsabilidades que o esperam mais adiante.” O sábio resolveu enviá-lo ‘numa busca’ que lhe oferecesse ‘Exxxperiêêêêêêência!’, e para tanto lhe deu um saco de Pó Mágico. Nessa busca, ele deveria passar por cenários errantes e provas cruéis
Assim, Roger sai para a sua busca e, para não provocar riso em quem está a 500 m, usa o pó mágico, que o transforma em margarida, vaca, cobra, cadeira, peixe, pássaro, ... e vai fazendo amigos, entre eles o caçador Tom, que entra e sai da história como quer. A amizade com Tom, todavia, chega ao fim e traz dificuldades. Aliás, muitas dificuldades: para sair da Floresta Para Sempre, Roger o faz de costas e alcança luz intensa, sobre rochedos infindos. Cai e fica preso na parede de um penhasco, quando aparece Lady Sarita, que perdeu seu colar, o qual fica preso em Roger. Pela primeira vez, a fim de devolver o colar, ele negocia e salva sua vida. Com ‘armadilhas
enfileiradas’, Roger pensa em si, negocia, toma decisão, pensa nos outros com força de vontade, passa fome, come pedra, passa vergonha, cria planos, luta durante 30 anos, ama Sarita e ‘sem prestar para nada, fica capaz de tudo’, diz a feiticeira.
O cenário, composto por Floresta Para Sempre, Divisa Perversa, Vale da Vingança, Mar de Gritos e Montanha de Más Intenções, põe Roger num palco giratório e, na figura de uma águia, sente-se disposto a salvar crianças, amigos, para enfim conquistar o Beijo da Vida da princesa Petúlia e o amor de Lady Sarita. Símbolos densos ( pó branco, pedra, carvalho, reinados/poder, colar ...) criam UM BARRIL DE RISADAS do príncipe e UM VALE DE LÁGRIMAS da princesa apaixonada agora por um imenso Gigante. A partir de suas jornadas e buscas, ambos se libertam das maldições: provocar riso e petrificar pessoas.
* texto de João Carlos Alves Rodrigues

sexta-feira, 4 de março de 2011

Scliar e os confrades II

O fato é um: a Literatura perde com a saída de cena de Moacyr Scliar, mas mais que a Literatura a vida perde um homem. Homem no sentido mais amplo que a noção de humanidade possa nos proporcionar.
Agora, ficam suas palavras, suas histórias. História que não optaram por um público específico. Escreveu para todos: crianças, adolescentes, adultos. Sabedor que aquele que conta histórias conta-as para o mundo, para todo mundo, e elas vão sempre encontrar lugar no coração de gente que ame as palavras. Como eu. Como talvez você que me lê.

Caio Riter, escritor


Como viver para sempre, Moacyr Scliar?
Justo agora, quando na Reinações escolhemos ler Como viver para sempre, tu te foste. Para onde? Talvez para uma maravilhosa biblioteca, repleta de arquivos akássicos contendo os tesouros da humanidade para te entreteres agora, na imortalidade de nossas lembranças e afetos.
PS: Eu, por aqui, estou (re)lendo os teus (nossos) Mistérios de Porto Alegre, que me deste nos idos de 1975.

Zilá Mesquita, escritora

terça-feira, 1 de março de 2011

Scliar e os confrades I

Apesar de ler muita literatura fantástica na minha adolescência lembro-me perfeitamente da fascinação com a qual li O centauro no jardim, de Moacyr Scliar. Com Scliar senti que o inusitado da vida poderia a qualquer momento dobrar a esquina e me atingir de cheio, me deixando enebriado pelo seu realismo tão fantástico e tão próximo.
Christian David, escritor


Em uma de suas últimas crônicas escrita para Zero Hora, Scliar fez um convite para que não perdêssemos a exposição sobre o bairro Bom Fim, que está no Museu da UFRGS. Pensando nele, eu fui até lá, no mesmo dia em que peguei, na Letras e Cia, os livros de março e abril da Confraria. Adorei a exposição, claro! Ele veio a falecer logo depois e pensei... que bom que ele curtiu a mostra, que bom que a mostra foi feita, enfim... Há bairros especiais, há escritores realmente imortais... e... ... que bom fazer tudo como se não existisse amanhã.... é bem óbvio e lugar comum, mas tão verdadeiro...
Valéria Hennigen, engenheira e administradora


Gostaria de estar escrevendo agora para o Moacyr Scliar, porque isso signifcaria que ele ainda não morreu. Porque o Scliar não podia morrer, tínhamos tanto que aprender com ele, tanto para lhe perguntar, tanto o que ouvir.
Ele clareava nossas idéias, generosamente, distribuia seu conhecimento. Suas falas eram certeiras, vagavam na universalidade das informações e caíam como luva nas nossas dúvidas, sem nunca nos deixar no etéreo mundo do invisível e do intangível.
Ele esclarecia e encantava, percorrendo com sua fala mansa bibliotecas e personagens. Talvez pela sua prática de médico, porque o Scliar, pasmem, não bastasse a sua escrita, tinha o dom da cura! quando falava de literatura, era o mesmo médico doce, daqueles raros espécimes dos grandes médicos, que sempre tem o placebo para a nossa dor e para a nossa curiosidade.
Eu queria estar escrevendo agora para ele, só pra dizer que estou sentindo muito a sua falta!

Cláudio Levitan, escritor

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um olhar sobre A grande questão

No 44º encontro da REINAÇÕES, que debateu a obra de Wolf Erlbruch, os confrades ficaram bem curiosos ao perceberem o tanto de anotações que o confrade João Carlos Rodrigues havia feito nas páginas do seu exemplar de A grande questão. Pois o João aceitou o convite para partilhar suas ideias conosco. Seguem abaixo.

A GRANDE QUESTÃO
Está no centro da temática um menino, que é orientado por 22 interlocutores sobre a razão de ele ter vindo ou estar na terra, no mundo. A temática é sobre a vida, sobre o existencial com um fio condutor centrado na dúvida. O tema mais objetivo são as relações afetivas, o amor que alavanca essas relações.
Nesse sentido, algumas manifestações são conclusivas; outras, exclamativas. Assim, falam:
1. conclusivamente: beijar as nuvens, o piloto; amar a vida, a morte; nos amamos, os pais; amar a si mesmo, a irmã; receber carinho, o coelho; te amo, a mãe.
2. ou, exclamativamente: mimar, a avó; cantar sua canção, o passarinho.


As demais falas abrem um leque de focos, de assuntos, de fazeres, de dúvidas: festejar seu aniversário, irmão; ronronar ou pelos ratos, o gato; comer bem, comilão; contar, três; obedecer, soldado; latir ou uivar, cachorro(acha); navegar, navegador; para estar, a pedra; ser paciente, jardineiro; confiar, cego; sem ideia, pato; ir à luta, lutador.
Então, os temas passam pela ideia de festa, descanso, alimento, conhecimento, arte (cantar sua canção), obediência, defesa, preocupação, viagem (pelo mar, ar), estar simplesmente, paciência, confiança, luta e sem consciência;
Os agentes são humanos (menino, irmão, irmã, pais, avó, comilão, soldado, navegador, aviador, jardineiro, cego, lutador); animais (gato, cachorro, pato, coelho, passarinho); mineral (pedra); morte. Falam os reinos animal e mineral. O reino vegetal não tem voz.
O autor conclui, dizendo ao menino: “Quando você crescer, vai encontrar outras repostas para a grande questão.” Segue, no projeto gráfico, uma folha pautada, em branco, com indicadores: Datas ............ Respostas
Trata-se de respostas à questão: Por que viemos ao mundo? segundo o tradutor. Sim, quando falam o gato, os pais, a mãe e o jardineiro: ideia de origem.
Contudo, creio que as demais questões indicam ‘para quê?’. Não buscam a ‘origem’, mas o ‘estar’, tanto que são introduzidas com a preposição ‘para’, quase todas.
Outras observações:
1. O menino deve aprender a contar até três. Por que três? O que representa o três?
2. Há duas pessoas ridicularizadas: o comilão, muito bem vestido, tem grande barriga, é muito gordo, usa gravata de tope, está feliz e aparece na página anterior ao três; e o soldado na página seguinte. Coincidência?
3. Só duas pessoas expressam alegria: a avó e o comilão.
4. Estar no ‘mundo’ é alusão do gato e do jardineiro.
5. Estar ‘na terra’ é alusão do irmão do menino. O cachorro também refere ‘estamos na terra’, no plural.
6. O cachorro sentado manifesta dúvida: ’eu acho’.
7. Os pais falam no plural e o cachorro também, mas o fiel escudeiro do homem traz o menino para a sua natureza: ‘Estamos aqui para latir, eu acho. E, às vezes, uivar para a Lua. ’
8. A história transita da concepção à morte emanante. Há vida? Então a morte está e com uma fala lapidar: “Você está aqui para amar a vida”.
9. As páginas do livro não são numeradas, pois a ordem da história não é linear. Ao iniciar a leitura, parece faltar algo, antes. O algo está depois.
10. O menino é o epicentro da GRANDE QUESTÃO: a avó quer mimá-lo; os pais, que o conceberam, falam lá na frente; a mãe mima a orelha dele, no colo; a irmã depõe; cinco velas estão no bolo e o irmão fala sobre o aniversário. Por tanto, uma família: avó, pais, dois irmãos e uma irmã.
11. Há os animais domésticos: o cachorro, o gato, o pato e o coelho. Todos simpáticos. Um jardineiro completa o ambiente doméstico.
12. Para além do lar, o passarinho, o padeiro, o comilão, o cego, o lutador (de preto) e o soldado (a perna esquerda soldada?) fazem suas colocações; o aviador e o navegador vasculham espaços. Uma pedra e a MORTE completam os encantos do cenário.
13. A pedra diz: se está aqui porque se está aqui. A morte recomenda ‘... amar a vida’. Vestida de camisolão bege, com 11 manchas redondas em amarelo, observa no horizonte uma abelha voar para o alto e para longe, com tons de bege e amarelo no corpo, asas azuis e cabeça preta.
14. A história percorre um tempo: inicia com o amor dos pais e termina com o sopro de cinco velas, no aniversário do menino.
15. As mulheres aparecem na condição de afeto: irmã, mãe, avó.
16. O pato, embora sua artilharia terra-mar-ar não tem ideia de nada. Confirma o ditado popular: ’Me tiras para pato?’.
17. ‘Para cantar a sua canção’ diz o passarinho. Interpreto como ‘para construir a sua vida’, no mundo em construção.
18. ‘A GRANDE QUESTÃO’ são dúvidas existenciais. Fisga maciamente a origem das coisas, interroga o sentido delas, remete à reconstrução e lembra a morte. Uma reflexão sobre a vida.
19. É uma abordagem sócio-política-cultural (...) e fundamentalmente filosófica, através da arte literária e da ilustração.
20. Tudo aparentemente simples: no visual, na beleza, na rapidez e absolutamente profundo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre amigos e livros

A confrade Magda Brito nos presenteia, nesse dia do amigo, o poema de Mateo Alemán que fala de amigos e de livros. Que os livros sempre nos aproximem de mais livros e de tantos e verdadeiros amigos.

AMIGOS

Devem-se buscar os amigos como os bons livros,
Pois a felicidade não está em que sejam muitos,
Nem diferentes, antes em que sejam poucos,
Bons e bem conhecidos.

Mateo Alemán (1547-1614)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010 com Esperança!


Carla Laidens, nossa confrade idealizadora dos convites, envia cartão de final de ano. Nele a imagem de Magritte conversa com a poesia de Quintana. E que 2010 seja pleno de esperança para todos nós.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Por um Brasil Literário

Recebo o manifesto Por um Brasil Literário, de Bartolomeu Campos de Queirós, que desejo partilhar com os confrades. Que nossas ações em 2010 possam ter como eco as palavras do Bartolomeu.

Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".Caio, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, Caio, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.Quando pensamos, Caio, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.
Caio, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?
Com meu abraço, sempre, Bartolomeu

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Uma noite na biblioteca

A confrade Elaine Maritza envia matéria interessante sobre o uso da biblioteca como espaço de ludismo e de descoberta da leitura. Vale a pena ler.


Passando a noite em uma biblioteca em Portugal

Dormir na morada dos livros: uma aventura vivida por uma turma de portugueses

Taynar Costa (novaescola@atleitor.com.br), de Seixal, Portugal

No fim da tarde de um sábado de maio, os funcionários da Biblioteca Municipal de Seixal, a 30 quilômetros de Lisboa, organizavam as estantes de livros. Embora esse fosse o procedimento-padrão antes de encerrar o expediente, naquele dia a arrumação tinha outro motivo: receber um grupo de 20 meninos e meninas, entre 8 e 11 anos, que iriam passar a noite ao lado dos livros. Oito e meia da noite era a hora marcada para começar a exploração de um ambiente repleto de saberes, com muita leitura e contação de histórias, e que só terminaria na manhã seguinte.
Ao chegar, para que todos se conhecessem, nada de apresentações formais. Os pequenos preencheram os crachás uns dos outros. Enquanto Diogo, o mais velho do grupo, fazia o de Beatriz, ela revelou uma de suas leituras preferidas: a poesia portuguesa de José Jorge Letria. Sabe por quê? "Porque ele me faz sentir bem", explicou, do alto de seus 8 anos.
Com todos já devidamente identificados, começou uma correria pelo ambiente. Como se estivessem em uma caça ao tesouro, as crianças seguiam pistas e procuravam por respostas para as questões escritas em fichas que tinham em mãos. Tratava-se de um desafio -- ou melhor, um peddy-paper, como se diz em Portugal -- para descobrir como é organizada e funciona uma biblioteca. Regras decifradas e normas esclarecidas, hora de vestir o pijama, arrumar os sacos de dormir e ouvir histórias para embalar o sono e, quem sabe, alimentar os sonhos. Caprichando na entonação, a bibliotecária Susana Filipe leu O Incrível Rapaz Que Comia Livros, obra escrita pelo australiano Oliver Jeffers. Quando a leitura terminou, Tomáz, 11 anos, lá no fundo da sala, gritou: "Mais uma, mais uma! Pode contar mais 1,5 bilhão de histórias!" Pedido atendido: com as luzes apagadas, Susana leu A Grande Questão, do alemão Wolf Erlbruch. Um a um, os pequenos adormeceram. No dia seguinte, assim que acordaram, as meninas correram a se enfeitar com presilhas e tiaras. Os meninos lotaram as mãos com gel para domar os cabelos rebeldes. Tudo muito rápido porque ninguém queria desperdiçar um só minuto da programação de domingo. Depois do desjejum, mais uma história - dessa vez, de autoria da brasileira Ana Maria Machado: O Pavão do Abre-e-Fecha. O enredo alimentou o desejo da turma de se perder entre as estantes da biblioteca à procura de novos títulos. "É importante que as crianças também possam escolher livremente para que a leitura seja significativa", disse a bibliotecária Carla Gomes. Ao seu lado, a funcionária Maria Elizabete Ferreira, que também passou a noite em claro velando o sono da garotada, confessou que para ela a recompensa do projeto está guardada para o futuro. "Esperamos que, depois de crescidos, todos esses estudantes se lembrem dessa noite e saibam que uma biblioteca é um espaço de aprendizagem." Pelos corredores do prédio, enquanto os pequenos arrumavam as mochilas para voltar para casa, era possível ouvir suas vozes, ecoando "Vitória, vitória, acabou-se a história!", uma frase típica portuguesa que marca o fim dos contos infantis neste lado do oceano.
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domingo, 30 de agosto de 2009

2º Encontro da Reinações-Caxias

O mistério das aranhas verdes: convite ao mistério

Dangelo Müller

A leitura do simpático O mistério das aranhas verdes, de Ana Lee e Carlos Heitor Cony, leva o leitor a um passeio pelas terras cariocas, com direito à floresta da Tijuca e à orla de Copacabana, na companhia de Edgar Alan Poe, Conan Doyle e Agatha Christie – mestres consagrados do gênero. Seguindo os passos propostos pelo mistério policial, encontramos uma crise inicial, a descoberta de pistas, a formulação de hipóteses e a inusitada solução final. Se a “receita” é a mesma, os autores conseguem inovar apresentando Carol, a sagaz detetive adolescente, que segue os passo etéreos do “homem do terno branco”, o famigerado – e elegante – chefão de uma quadrilha de “profissionais do crime”.
Fiel ao gênero a que se propõe, a obra também segue algumas premissas da boa literatura infanto-juvenil. Lee e Cony apresentam ao jovem leitor uma visão emancipatória, claramente observada nas atitudes da intrépida Carol: o mundo burocrático e obtuso dos adultos é totalmente suplantado pelo jeito dinâmico e astuto da carismática menina de 13 anos. Além de tal elemento, outros ingredientes que se destacam são a visão dos autores quanto ao Estado (representado pela polícia) e suas políticas ineptas contra a violência, a presença de um “vilão” que foge ao estereótipo da categoria e a valorização das relações interpessoais – peça chave na solução do enigma das “aranhas verdes”. A obra também chama a atenção ao apresentar ao leitor a difícil situação da família cujo membro é sequestrado: a tensão, o nervosismo e as “soluções mágicas” buscadas mimetizam as dificuldades de um momento tão angustiante na vida de muitos.
Assim, Carol, essa Odisseu adolescente, segue sua jornada rumo à verdade, a única força capaz de unir e dar significado, aos estranhos eventos que se iniciam com uma pretensa perna quebrada e se concluem com o brilho de lindas esmeraldas. A obra é um interessante passaporte de acesso ao mundo dos mestres Poe, Conan Doyle, Christie, Chandler, Capote, Arlt entre outros.

Algumas fotos do 2º Encontro da Reinações-Caxias


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Zezé e o Meu pé de Laranja Lima


Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos

Heloisa Carla Coin Bacichette

A primeira vez que li o livro Meu pé de laranja lima era menina. A segunda, na adolescência. Agora, passados alguns anos, leio “a história de um meninozinho que descobriu a dor” pela terceira vez. Leituras diferentes, portanto. Mas, independentemente das fases que separam essas leituras, os sentimentos despertados são os mesmos: um misto de alegria ( pela magia das brincadeiras e invenções do Zezé) e desencanto (pela falta de sensibilidade dos adultos em relação ao universo mágico das crianças).
Aos nove ou dez anos de idade, eu tinha caderno de recordação, com capa amarela, onde anotava títulos e nomes de autores de livros de que mais gostava. Era nele que escrevia, também, nomes dos personagens, copiando, ao lado de cada um, suas falas mais bonitas. Lembro que depois de ter lido Meu pé de laranja lima, transcrevi várias passagens da comovente história de Zezé. Um dia, porém, não sei como, perdi meu caderno de recordações. Movi mundos para encontrá-lo, mas nunca soube do seu paradeiro. É obvio que não lembro de todos os títulos de livros da minha lista de preferidos. Mas, tenho ainda guardado um exemplar do Meu pé de laranja lima, capa azul, 11ª edição, onde aparecem minhas anotações. Muitas delas possivelmente selecionadas para serem registradas no caderno de capa amarela. E, creio eu, com a mesma emoção que agora sublinho outra passagem, falando de um sol que ilumina tudo de felicidade. Igual emoção que me levou a buscar outros livros do mesmo autor: Rosinha, minha canoa; Coração de Vidro; Palácio Japonês; Doidão; Arara Vermelha; Arraia de fogo e Rua descalça.
Por isso, se pretendemos analisar a obra Meu pé de laranja lima é necessário estar desarmado, com olhos de quem lê com o coração aberto, pronto para conhecer e viver uma história que mexe com os dramas humanos. Trata-se de um texto escrito numa linguagem simples, com narrativa linear. Mas, que nos mostra a habilidade de um autor/contador de histórias. Habilidade esta que dá ao texto a sustentação necessária para capturar a atenção do leitor para um encontro com nossa criança interior. Talvez este seja um dos maiores méritos de José Mauro de Vasconcelos: ter vivido tantas aventuras, convivido com pessoas de diferentes origens e lugares e conseguir apresentar os personagens e cenários em narrativas ricas em detalhes, prontas para serem partilhadas pelos mais diferentes públicos. José Mauro escreveu histórias com a intensidade de quem experimentou a vida.
Histórias como a do personagem Zezé, cinco anos de idade ( e que dizia ter seis) , um menino pobre, inteligente e sensível que sofria com a violência e a insensibilidade da família. A realidade de Zezé - que se aproxima da realidade de muitas crianças - comove e faz pensar no quanto o mundo adulto pode interferir ( positiva ou negativamente) no desenvolvimento de uma criança. Zezé busca o afeto que não encontra na família nas pequenas coisas, em especial no Pé de laranja lima, o Minguinho. E é através dessa amizade e do seu encontro com o “Portuga” que consegue superar suas tristezas e recuperar a esperança de encontrar a ternura que, em muitos momentos, pensou ter perdido para sempre.
A leitura de “Meu pé de laranja lima” é uma oportunidade para se lembrar o quanto as crianças ensinam quando nós, adultos, sabemos ouvi-las com atenção e o respeito que merecem.

Helô Bacichette é escritora e confrade da Reinações-Caxias. Autora de Kimbalo, O enigma das caixas e T de ti, T de ta, entre outros.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Literatura politicamente incorreta...

A confrade Márcia Dreizik envia e-mail recebido do Ilan Brenman, que aponta uma discussão interessante, de certa forma levantada no nosso mais recente encontro (As aventuras de Tom Sawyer). Confiram, está bem interessante a discussão.

No final do ano passado defendi na Usp minha tese de doutorado. O assunto central da tese é: Livros politicamente corretos não ajudam na educação de crianças.Houve um interesse muito grande a respeito do assunto e dei algumas entrevistas a respeito.Queria compartilhar com vocês esse material. Acredito que quanto mais adultos debaterem tal tema, mais crianças serão beneficiadas.

Revista Época on Line: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI18323-15254,00.html

Correio Braziliense : http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_18/2008/12/24/noticia_interna,id_sessao=18&id_noticia=60180/noticia_interna.shtml

Rede Record: http://www.youtube.com/watch?v=NMH-FkSzjsY


Abraços,
Ilan
http://www.ilan.com.br/

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal na Confraria: palavras de Sérgio Napp

O Napp nos envia palavras poéticas, boas para pensarmos esta época natalina

uma estrela rasga o céu
não é uma noite igual
não é por certo o momento
de se dizer, não
sopra o vento de leve
e faz a roseira curvar-se
e o cheiro da noite é o cheiro
de noites antigas
eles vêm cantando
anunciando um menino
eles vêm falando
que a fé pode ser um menino
eles vêm pedindo
licença pros seus meninos
eles vêm sorrindo
será que são meninos?
e eu abro as mãos e ofereço
a minha casa modesta
a minha festa pequena
de quem não mais se lembrava
de um tempo de portas abertas
não é por certo o momento
do desacerto e do não
nasce um menino e com ele a esperança
será o momento de acalentá-los?

Grandes votos de Natal e Ano-Novo: que eles sejam quentes, ardentes,maravilhosos, alegres, coloridos, cheios de boas leituras e boas músicas, de planos e projetos; que os parentes não sejam serpentes, que os amigos sejam de fé, que os amores sejam arrebatadores, as paixões, avassaladoras; que os sonhos mais desejados não permaneçam apenas no desejo, mas que se transformem na mais rutilante das realidades.
Que tudo seja muito, muito, muito demais!
Que vocês sejam felizes e, mais do que felizes, brilhantes, elétricos e adoráveis.

Natal na Confraria: palavras de Jacira Fagundes

A confrade Jacira Fagundes nos manda um conto natalino.
O Menino e o bom velhinho

Aquela era a primeira vez que encaravam a proximidade; estavam os dois, assim, frente a frente. Nos anos anteriores, a decoração do shopping abrangera vários espaços temáticos. Mas desta vez o pessoal responsável optara por um espaço único, uma praça surpreendente onde cabia todo o encantamento de uma Noite de Natal.
O primeiro a falar fora o velhinho, num raro momento de descanso entre uma foto e outra. O Menino talvez ainda dormisse, mas aquela voz rouca interrompeu seu despretencioso sono de criança.
- Como você é bonitinho, face rosada, este rostinho cheio. Fica aí todo tempo deitado nesta caminha dura, sem um colchãozinho decente, você não cansa, não lhe doem as costas?
- Estou acostumado e, além do mais, sou pequenino, não tenho cansaço pra carregar. Você, sim, tão velhinho, aí sentado o dia inteiro, sempre posando pra foto. Não queria estar no seu lugar.
- Não queria mesmo? Duvido. Percebeu como o povo todo me rodeia, como as> crianças me adoram, fazem questão de tirar foto comigo. Você está é com ciúme.
- Não é bem ciúme... me botaram aqui no mesmo dia em que armaram esta sua cadeira enorme na minha frente. Eu fiquei imaginando que só poderia ser para alguém muito importante – um trono. Só não sabia que era gente de tanto conhecimento, uma celebridade com tantas visitas para receber e conversar. E ainda rodeado de crianças. Elas só querem saber de você, nem se aproximam para me olhar, eu fico muito triste com esta indiferença de parte das crianças, principalmente.
- Pois deve ser triste mesmo, indiferença corrói a alma da gente. Mas aqui no shopping é tudo uma concorrência danada, pode até ser injusta, mas> competição é competição. O povo compete pelos presentes, as lojas competem pelos clientes, a criançada compete pelos brinquedos. Você nem imagina os pedidos dos pequenos, são de arrebentar qualquer bolso, e principalmente a bolsa, ainda mais com esta crise. E você aí neste ostracismo, deitado nesta mangedourazinha, não faz nada pra resgatar sua importância, que sei, é bem> maior que a minha, meu caro Menino.
- Tenho consciência disso. Mas as crianças não têm culpa. Sou capaz de apostar que nem meu nome elas sabem.
- Será? Mas você sabe quem sou eu.
- Claro que sei. Há meses que nesta terra só se fala em você. Jornais, outdoors, propagandas na TV, na Internet, em toda parte só dá você. Aliás, a gente está aqui conversando e eu nem sei se você é o verdadeiro ou uma das tantas imitações que andam por aí. Tem roupa sua por toda parte, qualquer um faz uma réplica barata, inventa barriga, cola uma barba horrorosa na cara, fica destilando dentro desta roupa incômoda e sai por aí. Olha, sem querer lhe desprestigiar, outro dia escutei que tem até bandido aproveitando a ocasião e se fazendo passar por você. Pelo menos disso eu estou livre.
- Lá isto é verdade. E vocêzinho aí vai ficar nesta plenitude, esperando que o povo se dê conta que é seu aniversário que está pra chegar? Esta gente é muito cara de pau, fica exigindo presente no seu lugar, uns aproveitadores é o que são. E o comércio bate palmas e enche o caixa. Sabe do que mais? Mexa-se. Ponha a boca no trombone, chame os seus amigos anjinhos, eles sabem tocar aqueles clarinetes com perfeição, podem convocar um pessoal pra sua festa onde você é que o aniversariante e o homenageado.
- Vou lhe contar um segredo. Eles mais preferem me ver morto do que vivo.
- Cruz credo! Que pecado, uma coisinha linda igual você.
- Não, não é bem assim. Sabe a sexta-feira da Paixão? É quando o povo enche as igrejas só para olhar meus pés e mãos furados de prego. E a coroa de espinhos na minha cabeça. Aí eles gostam, se sentem condoídos, fazem orações, alguns até choram. É a culpa, porque não me acompanharam desde pequenino como agora.
- É, vá entender. Opa, opa! Vamos ter que encerrar nosso assunto, Amiguinho. Vem vindo um bando de crianças, todas portando máquinas digitais, coisa bem chata. Até mais tarde.
- Antes, posso lhe pedir um favor, unzinho só?
- Você manda, meu Menino.
- Eu queria que, se fosse possível, você levantasse do seu trono e passasse aqui pro meu lado e pedisse que o fotógrafo do shopping batesse uma foto sua e das crianças, comigo junto. Depois que todos se forem você me mostra. Combinado?
- Combinado.
- Ah, você é mesmo o verdadeiro e bom velhinho, Papai Noel. Vai ser meu presente de Natal. Obrigado!