terça-feira, 9 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O direito de brincar, por Dilan Camargo
Abaixo segue artigo escrito pelo Confrade Dilan Camargo que foi publicado na ZH. Vale a pena ler e opinar no site.
TEMA PARA DEBATE
O direito de brincar, por Dilan Camargo*
O ato de brincar é o momento feliz em que toda criança se cria e se recria para a vida. Ato capaz de determinar o futuro adulto em que ela vai se tornar. Sem ter, na infância, o direito de brincar, ela vai perder, para toda a vida, uma das mais fecundas experiências de civilização e humanidade. As brincadeiras, os jogos, a convivência com outras crianças durante a infância, são fundamentais para a formação de um ser humano equilibrado e feliz. A coisa mais séria que uma criança pode fazer é brincar. Quando brinca, a criança inventa mundos e o seu mundo muito pessoal. Este novo ser, este novo mundo, de uma nova pessoa em crescimento físico, afetivo e intelectual, precisa ser preservado e respeitado pelos adultos.
Infelizmente, a infância está sendo invadida, violada, por um mundo adulto artificializado pela sociedade consumista e sexista. A sociedade está negando às crianças o seu direito de simplesmente brincar. São cada vez mais insuficientes os espaços e o tempo de que dispõem para brincar, brincar e brincar. Só isso. As crianças dos centros urbanos, principalmente, quase todas estão sendo sufocadas pela expansão imobiliária e pelas rotinas em ambientes impróprios para brincar e expandir sua alegria de viver e de descobrir o mundo. Muitas delas estão sendo submetidas, diariamente, de forma precoce, a um absurdo conjunto de rotinas que lhes são impostas pelas famílias e pela sociedade. As crianças estão sendo “treinadas”, adaptadas e “produzidas em série”, desde bebês, para serem unicamente indivíduos à imagem e semelhança do deus o Consumidor. A infância tem a sua própria dimensão poética e não pode ser contaminada e desperdiçada pela “felicidade infeliz”, que já desgraça e empobrece a vida de tantos adultos seduzidos por um consumo pelo consumo, reduzido a um “ter” que sempre precisa “ter” mais.
Passeio de criança é no shopping e não na praça ou no parque. Nossas crianças passam cerca de quatro a cinco horas vendo a “maravilhosa” programação deseducativa da maioria dos canais da televisão brasileira. Vão formando, assim, a sua visão de mundo, manipuladas por uma publicidade idiotizante e erotizada, voltada para o consumo sem necessidade. Aprendem o pior da sociedade de consumo, sendo levadas a acreditar que vale mais ter sempre a Coisa e o Objeto mais novos. Perdem a consciência do seu próprio Eu, tornando-se indivíduos indiferenciados, formatados num único padrão de sonhar e viver. Mais “tão” do que “são”.
Crianças são vestidas como adultos, dançam como adultos, ouvem e cantam músicas de adultos, principalmente aquelas de conteúdo vulgar e de melodias extremamente primárias. Crianças consomem como adultos, veem programas de adultos na televisão. As meninas, de modo particular, são induzidas a exibir uma sensualidade precoce. Nem o recreio, em muitas escolas, tem efetivamente o sentido de brincRIar e de recRIar-se. De brincar e de rir o riso fácil, alegre, pleno de vida, que só uma criança consegue extrair da sua alma inocente.
Na era do computador, brincar não é mais uma vivência real. É virtual. Não há uma verdadeira socialização no ato de brincar, de se comunicar. Não há mais uma integração com a vida real, de brincar com amigos reais, de compartilhar a alegria da amizade. A infância não tem mais pátio. Tem unicamente uma tela iluminada, não pela luz do sol, mas pela luz artificial que muitas vezes projeta apenas sombras sobre suas vidas.
Na família, na escola, na sociedade, precisamos retomar os espaços e o sentido de brincar. E uma das experiências mais marcantes na vida de uma criança é o seu contato criativo com a Palavra. A descoberta da palavra escrita e cantada. O livro precisa ser uma presença viva na infância. Principalmente os livros de poesia. De poesia? Isso surpreende aquela mãe ou pai que não tiveram a oportunidade de um contato com a Palavra poetizada. Sim, da poesia, bem escolhida. Através da poesia, do jogo de palavras, rimas e aliterações, os pequenos-grandes leitores podem experienciar uma das melhores brincadeiras da infância: a brincadeira de descobrir os sons e os sentidos das palavras. A leitura de poesia liberta e fortalece a capacidade de expressão e expande a personalidade infantil. “Tenho dito”, uma expressão antiga, é uma forma de dizer que exis to e que tenho o que dizer ao mundo.
Brincar com as palavras, no contexto da poesia, é um exercício de liberdade, de criatividade, de recriação da nossa imaginação, da nossa esperança, da nossa capacidade de reinventar nossa própria existência, de recriar nosso destino. Alimentando as nossas inteligências, racional e emocional, pela leitura, tornamo-nos donos da nossa consciência e protagonistas da nossa história. Quem lê cria a própria história!
É preciso aceitar o convite das crianças e da vida: vamos brincar?
*zerohora.com/24 de maio de 2009 N° 15979
TEMA PARA DEBATE
O direito de brincar, por Dilan Camargo*
O ato de brincar é o momento feliz em que toda criança se cria e se recria para a vida. Ato capaz de determinar o futuro adulto em que ela vai se tornar. Sem ter, na infância, o direito de brincar, ela vai perder, para toda a vida, uma das mais fecundas experiências de civilização e humanidade. As brincadeiras, os jogos, a convivência com outras crianças durante a infância, são fundamentais para a formação de um ser humano equilibrado e feliz. A coisa mais séria que uma criança pode fazer é brincar. Quando brinca, a criança inventa mundos e o seu mundo muito pessoal. Este novo ser, este novo mundo, de uma nova pessoa em crescimento físico, afetivo e intelectual, precisa ser preservado e respeitado pelos adultos.
Infelizmente, a infância está sendo invadida, violada, por um mundo adulto artificializado pela sociedade consumista e sexista. A sociedade está negando às crianças o seu direito de simplesmente brincar. São cada vez mais insuficientes os espaços e o tempo de que dispõem para brincar, brincar e brincar. Só isso. As crianças dos centros urbanos, principalmente, quase todas estão sendo sufocadas pela expansão imobiliária e pelas rotinas em ambientes impróprios para brincar e expandir sua alegria de viver e de descobrir o mundo. Muitas delas estão sendo submetidas, diariamente, de forma precoce, a um absurdo conjunto de rotinas que lhes são impostas pelas famílias e pela sociedade. As crianças estão sendo “treinadas”, adaptadas e “produzidas em série”, desde bebês, para serem unicamente indivíduos à imagem e semelhança do deus o Consumidor. A infância tem a sua própria dimensão poética e não pode ser contaminada e desperdiçada pela “felicidade infeliz”, que já desgraça e empobrece a vida de tantos adultos seduzidos por um consumo pelo consumo, reduzido a um “ter” que sempre precisa “ter” mais.
Passeio de criança é no shopping e não na praça ou no parque. Nossas crianças passam cerca de quatro a cinco horas vendo a “maravilhosa” programação deseducativa da maioria dos canais da televisão brasileira. Vão formando, assim, a sua visão de mundo, manipuladas por uma publicidade idiotizante e erotizada, voltada para o consumo sem necessidade. Aprendem o pior da sociedade de consumo, sendo levadas a acreditar que vale mais ter sempre a Coisa e o Objeto mais novos. Perdem a consciência do seu próprio Eu, tornando-se indivíduos indiferenciados, formatados num único padrão de sonhar e viver. Mais “tão” do que “são”.
Crianças são vestidas como adultos, dançam como adultos, ouvem e cantam músicas de adultos, principalmente aquelas de conteúdo vulgar e de melodias extremamente primárias. Crianças consomem como adultos, veem programas de adultos na televisão. As meninas, de modo particular, são induzidas a exibir uma sensualidade precoce. Nem o recreio, em muitas escolas, tem efetivamente o sentido de brincRIar e de recRIar-se. De brincar e de rir o riso fácil, alegre, pleno de vida, que só uma criança consegue extrair da sua alma inocente.
Na era do computador, brincar não é mais uma vivência real. É virtual. Não há uma verdadeira socialização no ato de brincar, de se comunicar. Não há mais uma integração com a vida real, de brincar com amigos reais, de compartilhar a alegria da amizade. A infância não tem mais pátio. Tem unicamente uma tela iluminada, não pela luz do sol, mas pela luz artificial que muitas vezes projeta apenas sombras sobre suas vidas.
Na família, na escola, na sociedade, precisamos retomar os espaços e o sentido de brincar. E uma das experiências mais marcantes na vida de uma criança é o seu contato criativo com a Palavra. A descoberta da palavra escrita e cantada. O livro precisa ser uma presença viva na infância. Principalmente os livros de poesia. De poesia? Isso surpreende aquela mãe ou pai que não tiveram a oportunidade de um contato com a Palavra poetizada. Sim, da poesia, bem escolhida. Através da poesia, do jogo de palavras, rimas e aliterações, os pequenos-grandes leitores podem experienciar uma das melhores brincadeiras da infância: a brincadeira de descobrir os sons e os sentidos das palavras. A leitura de poesia liberta e fortalece a capacidade de expressão e expande a personalidade infantil. “Tenho dito”, uma expressão antiga, é uma forma de dizer que exis to e que tenho o que dizer ao mundo.
Brincar com as palavras, no contexto da poesia, é um exercício de liberdade, de criatividade, de recriação da nossa imaginação, da nossa esperança, da nossa capacidade de reinventar nossa própria existência, de recriar nosso destino. Alimentando as nossas inteligências, racional e emocional, pela leitura, tornamo-nos donos da nossa consciência e protagonistas da nossa história. Quem lê cria a própria história!
É preciso aceitar o convite das crianças e da vida: vamos brincar?
*zerohora.com/24 de maio de 2009 N° 15979
quinta-feira, 28 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
Caio à bolonhesa
quinta-feira, 14 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Um Confrade no Catálogo de Bolonha

O mais recente livro do confrade Christian David, Mão Dupla, (Artes e Ofícios) foi selecionado pela FNLIJ — Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil — para integrar o catálogo produzido anualmente para a Feira de Bolonha 2009 — Bologna Children´s Book Fair 2009. Parabéns, Christian, tomara que ele siga traçando trajetória de sucesso junto à crítica e aos corações dos teus leitores.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Leitura nas ruas:mais que um trocado
Caros confrades,
abaixo, texto que imagino que vá interessar muitíssimo à Confraria (se é que já não sabem dessa "pesquisa").
Para quem não circula no trânsito da capital paulista, faz-se necessário explicar um detalhe: "a mercadoria pendurada no retrovisor". Os vendedores de sinaleira lá têm os produtos que estão vendendo acondicionados em umas "tripas" plásticas. Eles acomodam uma em cada retrovisor do lado do motorista, bem rápido, e depois refazem o mesmo itinerário - ou recolhendo o dinheiro de quem comprou ou recolhendo a mercadoria naquela tripa plástica. É jogo rápido, enquanto a sinaleira (o farol) está acesa (bem mais tempo que as nossas de POA) - é como largar um xale no encosto de uma cadeira.
Abraço a todos,
Beatriz
Vale mais que um trocado
Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi
Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br)
"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.
Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.
Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.
* os nomes foram trocados para preservar os personagens.
Fonte: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml
abaixo, texto que imagino que vá interessar muitíssimo à Confraria (se é que já não sabem dessa "pesquisa").
Para quem não circula no trânsito da capital paulista, faz-se necessário explicar um detalhe: "a mercadoria pendurada no retrovisor". Os vendedores de sinaleira lá têm os produtos que estão vendendo acondicionados em umas "tripas" plásticas. Eles acomodam uma em cada retrovisor do lado do motorista, bem rápido, e depois refazem o mesmo itinerário - ou recolhendo o dinheiro de quem comprou ou recolhendo a mercadoria naquela tripa plástica. É jogo rápido, enquanto a sinaleira (o farol) está acesa (bem mais tempo que as nossas de POA) - é como largar um xale no encosto de uma cadeira.
Abraço a todos,
Beatriz
Vale mais que um trocado
Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi
Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br)
"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.
Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.
Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.
* os nomes foram trocados para preservar os personagens.
Fonte: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Reinações na crônica de Diana Corso
Uma cidade de leitores
Porto Alegre, 12 de fevereiro, entardecer, sensação térmica 40 graus. Fui ao encontro achando que seria a única maluca interessada em debater “História sem Fim” numa livraria do Bom Fim (Letras & Cia). Não era o caso. O bando de doidos que se encontrou naquele dia chama-se Confraria Reinações e completaram dois anos disso: reunir-se mensalmente na livraria para trocar idéias sobre literatura infanto-juvenil. A cada encontro decide-se qual será o próximo livro a ser compartilhado. Lemos clássicos ou qualquer outro que se mostrar marcante para esse público. Entre os presentes há escritores, professores, editores, artistas, alguns têm seus livros publicados, mas todos estão lá na condição de leitores. A discussão pode atingir todos os níveis, há liberdade para dizer: “gostei”, ou “detestei”, “me irritou e parei de ler”, “ pulei partes chatas”, e assim por diante. É isso que faz o encanto dessa reunião, a leveza que permitiu que se continuasse trabalhando até no nosso fevereiro.
Porto Alegre, 23 de abril, Dia Internacional do Livro, outro bando se reúne para atravessar a noite lendo o mesmo calhamaço – no caso “Cem anos de Solidão” – as vozes se alternam, alguns passam, outros ficam até o fim da noite e da obra.
Porto Alegre, primavera de todos os anos, há mais de meio século. Nossa Feira do Livro transforma-se no lugar onde nos encontramos, nos divertimos, discutimos assuntos aleatórios, borboleteamos. Somos uma cidade de leitores. Não sei dizer números, comparar com outras capitais do país e do mundo, é só uma boa impressão.
Somos também uma cidade de autores, mas creio que a condição de leitores é decisiva. A experiência da Reinações, na qual adultos leem livros de criança, especialistas dão-se ao luxo de opinar como amadores, autores posicionam-se como meros leitores, é exemplar disso. A cultura adquirida por cada um de nós consiste na transmissão do acervo de narrativas, sons e imagens da humanidade, que, já disse o psicanalista inglês Winnicott: todos podemos usar se tivermos algum lugar onde colocar o que encontremos. Somos como uma obra aberta, na qual vão se acumulando elementos provenientes do acervo da humanidade. Ser leitores é mostrar que se tem lugar para colocar o que se absorve, para processar a experiência cultural, e isso faz de cada leitor um autor de sua própria história. Nossa cidade cria espaços para que cada vida seja uma leitura dr amática dos tantos textos a que tivemos acesso, com os quais vamos proseando pelo tempo que nos toca.
Diana Corso — Zero Hora, 29 de abril de 2009
Porto Alegre, 12 de fevereiro, entardecer, sensação térmica 40 graus. Fui ao encontro achando que seria a única maluca interessada em debater “História sem Fim” numa livraria do Bom Fim (Letras & Cia). Não era o caso. O bando de doidos que se encontrou naquele dia chama-se Confraria Reinações e completaram dois anos disso: reunir-se mensalmente na livraria para trocar idéias sobre literatura infanto-juvenil. A cada encontro decide-se qual será o próximo livro a ser compartilhado. Lemos clássicos ou qualquer outro que se mostrar marcante para esse público. Entre os presentes há escritores, professores, editores, artistas, alguns têm seus livros publicados, mas todos estão lá na condição de leitores. A discussão pode atingir todos os níveis, há liberdade para dizer: “gostei”, ou “detestei”, “me irritou e parei de ler”, “ pulei partes chatas”, e assim por diante. É isso que faz o encanto dessa reunião, a leveza que permitiu que se continuasse trabalhando até no nosso fevereiro.
Porto Alegre, 23 de abril, Dia Internacional do Livro, outro bando se reúne para atravessar a noite lendo o mesmo calhamaço – no caso “Cem anos de Solidão” – as vozes se alternam, alguns passam, outros ficam até o fim da noite e da obra.
Porto Alegre, primavera de todos os anos, há mais de meio século. Nossa Feira do Livro transforma-se no lugar onde nos encontramos, nos divertimos, discutimos assuntos aleatórios, borboleteamos. Somos uma cidade de leitores. Não sei dizer números, comparar com outras capitais do país e do mundo, é só uma boa impressão.
Somos também uma cidade de autores, mas creio que a condição de leitores é decisiva. A experiência da Reinações, na qual adultos leem livros de criança, especialistas dão-se ao luxo de opinar como amadores, autores posicionam-se como meros leitores, é exemplar disso. A cultura adquirida por cada um de nós consiste na transmissão do acervo de narrativas, sons e imagens da humanidade, que, já disse o psicanalista inglês Winnicott: todos podemos usar se tivermos algum lugar onde colocar o que encontremos. Somos como uma obra aberta, na qual vão se acumulando elementos provenientes do acervo da humanidade. Ser leitores é mostrar que se tem lugar para colocar o que se absorve, para processar a experiência cultural, e isso faz de cada leitor um autor de sua própria história. Nossa cidade cria espaços para que cada vida seja uma leitura dr amática dos tantos textos a que tivemos acesso, com os quais vamos proseando pelo tempo que nos toca.
Nosso Sarau
O 1º Sarau da Reinações, ocorrido no dia 25/04, foi um sucesso. Momento bacana em que escritores e leitores puderam ler fragmentos de textos e poemas feitos para crianças e adolescentes. Foram ao todo 34 participantes. Abaixo, o depoimento da escritora Valesca de Assis, que levou seu neto Antônio para curtir o momento litero-musical.
Caio, querido amigo,
foi um belo Sarau. Nos divertimos como crianças. Parabéns,
valeu uma vida ter aquelas crianças, grandes e pequenas, lendo histórias e poemas,
beijos a ti e aos teus.,
Valesca
Caio, querido amigo,
foi um belo Sarau. Nos divertimos como crianças. Parabéns,
valeu uma vida ter aquelas crianças, grandes e pequenas, lendo histórias e poemas,
beijos a ti e aos teus.,
Valesca
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Isto e aquilo: poesia, dança e brincadeira
por Maira KnopLer Cecília é uma dança. Mas cuidado, sua poesia pode te levar a voar por aí. E isto é fato. Se for ler Ou isto ou aquilo, que seja em alto e bom som, que é para assim colorir a vida. Foi assim que li, como menina. E quando cheguei lá adiante, no finalzinho, fui voltando, voltando, recolhendo as letrinhas, devagarzinho até o início, quando reli tudo sorrindo novamente.
Palavra por palavra, a obra nos ensina, distrai e diverte com lindos poemas carregados de sonoridade e de imagens. Com o livro nas mãos e os olhos nos poemas, não há leitor que a alegria não visite. A obra agrada tanto aos pequenos quanto aos maiorzinhos com sua doce criatividade.
Ou isto, ou aquilo Jogo de bola Pescaria Uma palmada bem dada Os poemas, conjuntos estes de sonoras letras, sabem fazer uma energética batucada. O texto, o som, a alegria, o tom enchem de magia o mundo da leitura nessa obra consagrada.
POESIA sim, poesia com rimas, graça e leveza. Com ingênua transparência, Cecília faz-se especial pelo domínio de técnicas e por possuir uma jovial naturalidade expressa em seus 57 poemas espalhados em suas páginas. Tanto podem ser lidos na ordem em que foram escritos como também alternados, pois do mesmo modo divertem. Se optar por maior inventividade, poderá lê-los de baixo para cima, bem alto para brincar com a sonoridade. Sonhos, amor e amizade são alguns dos temas abordados sem, em momento algum, deixar de lado sua musicalidade. Contribui para engrandecer a obra as ilustrações da artista plástica argentina Beatriz Berman. Os desenhos passeiam nas páginas e de hora em hora vão dizendo: Quero te ouvir, quero te ouvir. Acompanhar esta aventura no país da Cecília é rever a nossa mãe, sentar no colo da tia, ou deitar-se sob almofadas naquele cantinho da sala ouvindo o barulhinho das letras. Em algumas passagens, o texto sobrepõe-se às imagens restando apenas visíveis parte delas, como no poema "A língua do Nhem" em que, logo abaixo do texto, vê-se as patas dos animais que decoram a paisagem. Flutua-se lendo "Bolhas", da mesma forma que lambuzamo-nos lendo "Tanta Tinta".
A autora antes de aprender a ler, ao brincar com os livros, imaginava-os cheios de vozes; vozes estas presentes na composição de cada um de seus versos. Na obra, estão presentes vários personagens, ao todo 22, que brincam de ciranda com as poesias dando autenticidade à variedade dos temas. Na hora de conferir a gurizada, alguns tem que responder à chamada mais de uma vez, como a Arabela, a Carolina e o Raul, depois seguem a Maria, Mariana, a Marina, a Dulce, o Chico, a Pedrina; todos vão dando as mãos, fazendo roda com Olga, com Olívio e com Orfeu. E a Dalila anuncia: Eu li! E Célia, Lélia e Eulália complementam: Eu vi!
Como Quintana, Cecília emociona. Não deixe de brincar. Continue lendo...
sexta-feira, 17 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Palavra de Confrade 3: Maria da Graça Artioli
A Graça Artioli tem sido presença constante nos encontros da REINAÇÕES. É bibliotecária, coordena a biblioteca do Cais durante a Feira do Livro de Porto Alegre e atua no Colégio São Pedro. Apaixonada pela literatura infanto-juvenil, ela agora nos apresenta suas palavras de confrade.1. Para você, em que aspectos a literatura feita pra crianças e adolescentes reina?
Para mim a Literatura Infanto-Juvenil, é encantamento, emoção, os livros são verdadeiras "Caixas mágicas de surpresas”.
2. Qual o encontro da Reinações que mais marcou sua história de leitor? Por quê?
O encontro da Reinações que mais me marcou como leitora foi o em que debatemos O Mágico de Oz, de Frank Baum, porque lembrou a minha infância de leitora, o filme antigo e as várias edições do livro, foi emocionante este reencontro.
3. Como bibliotecária escolar, como você vê o papel da escola como formadora de
leitores críticos?
A escola pode ser formadora de leitores críticos, por que, além das leituras obrigatórias, o leitor que tem uma biblioteca a seu dispor, com indicações dos professores e dos bibliotecários, pode fazer suas próprias escolhas.
4. Que tipo de livros infanto-juvenis as crianças e os adolescentes mais têm buscado na biblioteca? Por quê?
As crianças da escola infantil gostam dos livros interativos e com sons, os que já sabem ler preferem a "Coleção Quem tem medo", depois vem a "Judy Moody". Os adolescentes estão lendo a "Coleção Deltora Quest" e a "Goosebumps", porque estão mais evidentes no momento. Eles também perguntam por livros que viram na TV, mas acho importante dizer que sempre que converso, principalmente com os de 1ª a 4ª séries, e quando conto histórias, eles prestam a atenção e aceitam sugestões. Uma menina uma vez veio agradecer e me disse que eu devia indicar para a amiga dela que o livro era muito bom.
5. Deixe aqui uma dica de leitura para os confrades. Não esqueça de fazer um comentariozinho sobre ela.
Bem , a dica que eu deixo é Felpo Filva, da Eva Furnari, Ed. Moderna. Felpo é um coelho neurótico solitário e poeta, sua vida muda quando uma leitora lhe escreve, e ele lê a carta (porque ele não lia as cartas que recebia) e então... vocês precisam ler para saber o resto. Eu gosto desta história que há uns dois anos atrás me foi apresentada por uma amiga de 9 anos, já contei para adultos que, sempre que me encontram, lembram dela e me falam.
6. Que Palavra de confrade você gostaria de conhecer?
Eu gostaria de conhecer as palavras da confrade Jacira Fagundes.
O mágico de Oz, por Cláudio Levitan

O mágico de Oz,uma história em movimento
por Cláudio Levitan
“ (...) a história do 'Maravilhoso Mágico de Oz' foi escrita unicamente para agradar as crianças de hoje. Pretende ser um conto de fadas modernizado, em que o encanto e a alegria são mantidos, enquanto os sofrimentos e pesadelos são deixados de fora”.
Frank Baum
Tomei conhecimento desse clássico da literatura infantil, como muitas crianças da minha época, através do rádio, no programa Teatrinho Cacique, da Rádio Guaíba. Era logo depois do Repórter Esso, um noticioso que demorava pra terminar por causa da nossa ansiedade. Parávamos de brincar para, juntos em volta do rádio, ouvir as aventuras de Dorothy que foi levada, não como Alice para o fundo da Terra, mas para uma terra distante, talvez uma nuvem, por um ciclone.
Os objetivos do Frank Baum, autor do MÁGICO DE OZ, de tirar os pesadelos e os sofrimentos da história e curtir simplesmente a fantasia, foram em parte alcançados. Porque para uma história atrair ela tem que ter um pé na realidade e isso significa uma ponta de sofrimento. E o pé desse livro está bem fincado na natureza de Kansas, cidade de onde sai o ciclone da história, um fenômeno cotidiano daquela região, que joga a menina para uma terra melhor do que o lugar onde vive. De onde bruxas más (do Oeste e do Leste) fazem o Mundo de Oz girar, assim como acontece com a Terra de verdade. As bruxas boas do Sul e do Norte são o eixo que a menina precisa recuperar a todo momento para seguir sua jornada pelos reinos dos quatro pontos cardeais, onde as bruxas malvadas do Oeste e do Leste guardam os segredos que Dorothy precisa para alcançar seu objetivo: voltar de onde partiu.
A jornada do herói se realiza de maneira suave e poética nesse livro. Mesmo que o autor tenha querido privar as crianças dos sofrimentos, não há como viver no mundo sem que algo se quebre. É na passagem de Dorothy pela Terra de Porcelana, que percebemos, sentimos, visualizamos que a simples presença da menina, tentando cruzar aquele mundo frágil de bonecos de louça, vai destruindo parte daquela beleza, mesmo que não queira. Uma pata da vaca, um cotovelo rachado da camponesinha, mesmo havendo cola para juntar as partes, sempre ficarão feios os ferimentos.
Dorothy vai nos mostrando que é na solidariedade dos amigos que reside a solução para todos os problemas de sua viagem. Ao fim e ao cabo, a solução estava já no primeiro momento da história, quando a casa cai sobre a bruxa do Oeste e ela ganha os seus sapatos mágicos que permitiriam que ela voltasse imediatamente à sua casa. Mas, que graça teria? Não conheceria o Espantalho sem cérebro, o Lenhador de Lata sem coração, o Leão sem coragem, o Mundo verde e falso de Oz, o mundo azul dos Munchkins, o mundo amarelo dos Winkies, o Mágico charlatão, os Macacos Voadores. Ela mesma conclui estar contente por ter sido útil para seus bons amigos e que agora poderia voltar para sua terra natal.
Que graça tem uma vida sem movimento? E o movimento é feito de pesadelos e sonhos, sofrimentos e alegrias. Nisso está a cor do mundo. Frank Baum consegue, antes de tudo, contar uma história moderna. Mesmo que tenha sido escrita no final do século XIX, ela tem a dinâmica e a criatividade de nosso tempo, tudo porque ele curte o essencial da criança: sua imaginação. E criança é tudo o que permanece em nós, por todos os séculos e todas as idades.
por Cláudio Levitan
“ (...) a história do 'Maravilhoso Mágico de Oz' foi escrita unicamente para agradar as crianças de hoje. Pretende ser um conto de fadas modernizado, em que o encanto e a alegria são mantidos, enquanto os sofrimentos e pesadelos são deixados de fora”.
Frank Baum
Tomei conhecimento desse clássico da literatura infantil, como muitas crianças da minha época, através do rádio, no programa Teatrinho Cacique, da Rádio Guaíba. Era logo depois do Repórter Esso, um noticioso que demorava pra terminar por causa da nossa ansiedade. Parávamos de brincar para, juntos em volta do rádio, ouvir as aventuras de Dorothy que foi levada, não como Alice para o fundo da Terra, mas para uma terra distante, talvez uma nuvem, por um ciclone.
Os objetivos do Frank Baum, autor do MÁGICO DE OZ, de tirar os pesadelos e os sofrimentos da história e curtir simplesmente a fantasia, foram em parte alcançados. Porque para uma história atrair ela tem que ter um pé na realidade e isso significa uma ponta de sofrimento. E o pé desse livro está bem fincado na natureza de Kansas, cidade de onde sai o ciclone da história, um fenômeno cotidiano daquela região, que joga a menina para uma terra melhor do que o lugar onde vive. De onde bruxas más (do Oeste e do Leste) fazem o Mundo de Oz girar, assim como acontece com a Terra de verdade. As bruxas boas do Sul e do Norte são o eixo que a menina precisa recuperar a todo momento para seguir sua jornada pelos reinos dos quatro pontos cardeais, onde as bruxas malvadas do Oeste e do Leste guardam os segredos que Dorothy precisa para alcançar seu objetivo: voltar de onde partiu.
A jornada do herói se realiza de maneira suave e poética nesse livro. Mesmo que o autor tenha querido privar as crianças dos sofrimentos, não há como viver no mundo sem que algo se quebre. É na passagem de Dorothy pela Terra de Porcelana, que percebemos, sentimos, visualizamos que a simples presença da menina, tentando cruzar aquele mundo frágil de bonecos de louça, vai destruindo parte daquela beleza, mesmo que não queira. Uma pata da vaca, um cotovelo rachado da camponesinha, mesmo havendo cola para juntar as partes, sempre ficarão feios os ferimentos.
Dorothy vai nos mostrando que é na solidariedade dos amigos que reside a solução para todos os problemas de sua viagem. Ao fim e ao cabo, a solução estava já no primeiro momento da história, quando a casa cai sobre a bruxa do Oeste e ela ganha os seus sapatos mágicos que permitiriam que ela voltasse imediatamente à sua casa. Mas, que graça teria? Não conheceria o Espantalho sem cérebro, o Lenhador de Lata sem coração, o Leão sem coragem, o Mundo verde e falso de Oz, o mundo azul dos Munchkins, o mundo amarelo dos Winkies, o Mágico charlatão, os Macacos Voadores. Ela mesma conclui estar contente por ter sido útil para seus bons amigos e que agora poderia voltar para sua terra natal.
Que graça tem uma vida sem movimento? E o movimento é feito de pesadelos e sonhos, sofrimentos e alegrias. Nisso está a cor do mundo. Frank Baum consegue, antes de tudo, contar uma história moderna. Mesmo que tenha sido escrita no final do século XIX, ela tem a dinâmica e a criatividade de nosso tempo, tudo porque ele curte o essencial da criança: sua imaginação. E criança é tudo o que permanece em nós, por todos os séculos e todas as idades.
quarta-feira, 11 de março de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Nova versão de "A História Sem Fim"
A produtora de Leonardo DiCaprio, Appian Way, a The Kennedy/Marshall Co. e a Warner Bros estão negociando uma refilmagem do filme "A História Sem Fim", sucesso infanto-juvenil nos anos 80, revelou o site "The Hollywood Reporter".
Leonardo DiCaprio produzirá refilmagem de "A História Sem Fim". Baseado no livro do escritor alemão Michael Ende, o longa conta como o garoto Bastian Balthazar Bux descobre um mundo paralelo em uma obra intitulada "A História Sem Fim". À medida que o menino avança na narrativa do livro, ele vê que sua vida está entrelaçada com a do livro, que mostra um herói tentando salvar uma terra chamada Fantasia em nome da imperatriz. A refilmagem também será produzida por Dieter Geissler, um dos produtores de "A História Sem Fim" original.
Segundo o "Hollywood Reporter", o novo longa abordará detalhes do livro que não apareceram no filme de 1984. "A História Sem Fim" foi dirigida por Wolfgang Petersen, que depois realizou grandes produções como "Troia" e "Força Aérea Um". O filme arrecadou US$ 20 milhões (cerca de R$ 47 milhões) nas bilheterias, mas fez sucesso em vídeo, tornando-se uma obra cultuada.
Uma sequência foi dirigida por George Miller (o mesmo de "André - Uma Foca Em Minha Casa", de 1994, sobre uma foca de estimação), em 1990, e conseguiu US$ 17 milhões (R$ 40 milhões).
Em 1996, um terceiro filme da saga foi realizado, mas foi lançado diretamente em vídeo nos Estados Unidos. (26/02/2009 - 11h04 Folha Online )
Leonardo DiCaprio produzirá refilmagem de "A História Sem Fim". Baseado no livro do escritor alemão Michael Ende, o longa conta como o garoto Bastian Balthazar Bux descobre um mundo paralelo em uma obra intitulada "A História Sem Fim". À medida que o menino avança na narrativa do livro, ele vê que sua vida está entrelaçada com a do livro, que mostra um herói tentando salvar uma terra chamada Fantasia em nome da imperatriz. A refilmagem também será produzida por Dieter Geissler, um dos produtores de "A História Sem Fim" original.
Segundo o "Hollywood Reporter", o novo longa abordará detalhes do livro que não apareceram no filme de 1984. "A História Sem Fim" foi dirigida por Wolfgang Petersen, que depois realizou grandes produções como "Troia" e "Força Aérea Um". O filme arrecadou US$ 20 milhões (cerca de R$ 47 milhões) nas bilheterias, mas fez sucesso em vídeo, tornando-se uma obra cultuada.
Uma sequência foi dirigida por George Miller (o mesmo de "André - Uma Foca Em Minha Casa", de 1994, sobre uma foca de estimação), em 1990, e conseguiu US$ 17 milhões (R$ 40 milhões).
Em 1996, um terceiro filme da saga foi realizado, mas foi lançado diretamente em vídeo nos Estados Unidos. (26/02/2009 - 11h04 Folha Online )
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Atividades muitas!
Aguardem, confrades, pois muitas atividades vêm aí:
Em março, dia 17, o 23º Encontro da Reinações debaterá o livro FOGUINHO, de Jules Renard, com coordenação do escritor Dilan Camargo, lembrando que agora os encontros são nas terças-feiras.
E em abril, mês da comemoração do segundo aniversário da Reinações, o debate será com o livro O JARDIM SECRETO, de Frances Burnett, com coordenação da psicanalista Diana Corso.
Estamos organizando também uma mesa sobre literatura fantástica e um sarau litero-musical com textos infanto-juvenis, abertos a quem quiser entrar.
E na 55ª Feira do livro de Porto Alegre, estaremos realizando o 3º Encontro daReinações na Feira, além de um seminário Lendo os clássicos infanto-juvenis com presença de Ana Maria Machado.
É a Literatura infanto-juvenil no seu lugar de direito! Agendem-se e participem!
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
No meio de "A História Sem Fim"
Motivado pela indicação de leitura para o 22º Encontro da Reinações, enveredo pelas verdes letras do livro de Michael Ende, A História Sem Fim. Meu olhar é conduzido pelo protagonista Bastian, um garoto meio perdido no mundo, que se revela opressor após a morte de sua mãe, quer pelo aparente distanciamento paterno, quer pela estrutura pouco convidativa da escola, com seus professores autoritários e seus alunos que perseguem aqueles que sonham. Assim, o pequeno, gordo e atrapalhado Bastian se vê mergulhado em Fantasia e na saga de Atreiú para salvar a Imperatriz Criança. Estou naquele estágio de fascinação, de não querer abandono das páginas (pareço o Bastian!) e de ter que escrever algo sobre. Daí este breve comentário (mas longa interrupção da leitura!). Abaixo, um techo que fala do fascínio dos livros sobre quem os ama. Merece destaque aqui."A paixão de Bastian Baltasar Bux eram os livros.
Quem nunca passou tardes inteiras diante de um livro, com as orelhas ardendo e o cabelo sobre o rosto, esquecido de tudo o que o rodeia e sem se dar conta de que está com fome ou com frio...
Quem nunca se escondeu embaixo dos cobertores lendo um livro à luz de uma lanterna, depois de o pai ou a mãe ou qualquer outro adulto lhe ter apagado a luz, com o argumento bem-intencionado de que já é hora de ir para a cama, pois no dia seguinte é preciso levantar cedo...
Quem nunca chorou, às escondidas ou na frente de todo o mundo, lágrimas amargas porque uma história chegou ao fim e é preciso dizer adeus aos personagens na companhia das quais se viveram tantas aventuras, que foram amadas e admiradas, pelas quais se temeu ou ansiou, e sem cuja companhia a vida parece vazia e sem sentido...
Quem não conhece tudo isso por experiência própria provavelmente não poderá compreender o que Bastian fez em seguida." (p. 6/7)
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Literatura politicamente incorreta...
A confrade Márcia Dreizik envia e-mail recebido do Ilan Brenman, que aponta uma discussão interessante, de certa forma levantada no nosso mais recente encontro (As aventuras de Tom Sawyer). Confiram, está bem interessante a discussão.
No final do ano passado defendi na Usp minha tese de doutorado. O assunto central da tese é: Livros politicamente corretos não ajudam na educação de crianças.Houve um interesse muito grande a respeito do assunto e dei algumas entrevistas a respeito.Queria compartilhar com vocês esse material. Acredito que quanto mais adultos debaterem tal tema, mais crianças serão beneficiadas.
Revista Época on Line: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI18323-15254,00.html
Correio Braziliense : http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_18/2008/12/24/noticia_interna,id_sessao=18&id_noticia=60180/noticia_interna.shtml
Rede Record: http://www.youtube.com/watch?v=NMH-FkSzjsY
Abraços,
Ilan
http://www.ilan.com.br/
No final do ano passado defendi na Usp minha tese de doutorado. O assunto central da tese é: Livros politicamente corretos não ajudam na educação de crianças.Houve um interesse muito grande a respeito do assunto e dei algumas entrevistas a respeito.Queria compartilhar com vocês esse material. Acredito que quanto mais adultos debaterem tal tema, mais crianças serão beneficiadas.
Revista Época on Line: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI18323-15254,00.html
Correio Braziliense : http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_18/2008/12/24/noticia_interna,id_sessao=18&id_noticia=60180/noticia_interna.shtml
Rede Record: http://www.youtube.com/watch?v=NMH-FkSzjsY
Abraços,
Ilan
http://www.ilan.com.br/
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Palavra de Confrade 2: Beatriz Abuchaim
Beatriz Abuchaim é psicológia e escritora. Participou da Oficina de Criação Literária com o escritor Charles Kiefer e, em 2008, publicou seu primeiro livro individual: Habitantes de corpos estranhos (Editora Projeto), uma coletânea de contos que aborda o universo juvenil, com suas problemáticas, suas neuras, suas dúvidas e certezas. Abaixo, Beatriz, que já participou de vários encontros da Reinações, tendo, inclusive coordenado o debate sobre A fantástica fábrica de chocolate, de Roald Dahl, nos dá sua palavra.1.Para você, em que aspectos a literatura feita pra crianças e adolescentes reina?
Reina em inúmeros sentidos. Em primeiro lugar, pela possibilidade de formar novos leitores. Em segundo, pela introdução na vida de crianças e jovens de um espaço para reflexão sobre suas existências. Em terceiro, pela satisfação da necessidade que nós adultos temos de nos conectarmos com a criança e o adolescente que um dia fomos, e que ainda, de certo modo, somos. Literatura infanto-juvenil é assunto de gente grande. Grande não porque cresceu, mas porque se permite, de vez em quando, a grandeza de reinventar o mundo, como crianças e adolescentes bem fazem.
Reina em inúmeros sentidos. Em primeiro lugar, pela possibilidade de formar novos leitores. Em segundo, pela introdução na vida de crianças e jovens de um espaço para reflexão sobre suas existências. Em terceiro, pela satisfação da necessidade que nós adultos temos de nos conectarmos com a criança e o adolescente que um dia fomos, e que ainda, de certo modo, somos. Literatura infanto-juvenil é assunto de gente grande. Grande não porque cresceu, mas porque se permite, de vez em quando, a grandeza de reinventar o mundo, como crianças e adolescentes bem fazem.
2. Qual o encontro da Reinações que mais marcou sua história de leitor? Por quê?
Gostei muito do encontro em que debatemos a obra de Silvia Orthof. Foi divertido e estimulante, porque havíamos lido textos diferentes da autora e cada um falou um pouco de suas impressões. Fiquei motivada a conhecer outros livros dela. Talvez o meu prazer maior em ter conhecido esta autora na Confraria tenha vindo depois, quando dei O sapato que miava para meu sobrinho. Estávamos na casa de minha irmã e daqui a pouco eu encontro a minha mãe às gargalhadas, vocês podem imaginar fazendo o quê.
Aprendi que autores como a Silvia, com seu texto simples, gracioso e ao mesmo tempo profundo, são exemplos de que a Literatura infanto-juvenil de qualidade reina a qualquer tempo, com quaisquer leitores.
3. Com você percebe a literatura para crianças e adolescentes feita no Rio Grande do Sul?
Não sou uma expert no assunto, mas acho que temos muita coisa boa sendo produzida pelos gaúchos. Ainda (e isso é inacreditável neste nosso suposto mundo globalizado) a literatura gaúcha, de modo geral, não fez todo o barulho que mereceria em nível nacional. Espero pertencer a geração de escritores que faça essa virada de mesa.
4. Percebe-se na literatura para adolescentes certa predileção por novelas. O que a levou a optar pelo conto em "Habitantes de corpos estranhos"?
Na verdade, existem poucos livros de contos para adolescentes, não? Optei pelo conto em “Habitantes...” porque desejava contar muitas histórias que levassem a diferentes reflexões.
Independente do gênero (se conto, novela ou romance), gosto de textos que tenham economia narrativa, ou seja, que digam muitas coisas em poucas palavras. Acho que a Literatura é um jogo de luz e sombra, o qual o autor tem de possuir a arte de revelar e, principalmente, de esconder, pois é isso que permite a interatividade do leitor com texto. O leitor só consegue “entrar” na história se damos espaço para ele imaginar em cima dela e, por isso, pode ser um risco muito grande revelar tudo. O fundamental é mostrar, descrever e deixar que o leitor complete o trabalho de interpretação. O conto tem essa estrutura econômica de construir um universo inteiro em três, quatro páginas, porque joga, sobretudo, com o subtexto, o que está implícito à história, o que não se diz escancaradamente, mas se sugere.
5. Deixe aqui uma dica de leitura para os confrades. Não esqueça de fazer um comentariozinho sobre ela.
Indico um livro que me encantou em minha adolescência e que lido depois (de velha) causou-me o mesmo efeito. Acho que não é uma obra de literatura juvenil propriamente dita, não foi escrita para o público jovem, mas possui todos os atrativos para apaixonar jovens e adultos. Chama-se O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger.
Esta obra conta a história de um adolescente que, expulso de um internato, faz seu caminho de volta para casa. O personagem é muito bem construído, livre de quaisquer estereótipos, e a narrativa se sustenta até o final com a dose certa entre tensão e fluidez.
6. Que Palavra de confrade você gostaria de ler?
Gostaria de ler as palavras da confrade Maria da Graça Artioli.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
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